
Na última década, o Brasil viu
seu agronegócio ganhar um novo status, passando de responsável pela comida na
mesa do brasileiro, para um importante elemento da cadeia produtiva mundial.
Para que isso fosse possível, além de grandes empresas e organizações, as
cooperativas agropecuárias tiveram que aumentar ainda mais sua capacidade,
buscando novas técnicas e expandindo seus negócios.
Neste cenário, foi necessário um
igual fortalecimento da oferta de crédito para o produtor, em especial, o
crédito rural. Com o passar do tempo, o governo federal deixou de suprir
totalmente a demanda por recursos, e passou a necessitar da ajuda de outros
setores.
Assim, as cooperativas
tornaram-se protagonistas no cenário de crédito, ocupando altas posições nos
rankings de volume de recursos ofertados. Agora, no terceiro momento em que
vivemos, esse cenário tem ganhado um novo elemento. Vivemos hoje, a era do
financiamento coletivo rural.
O cenário até aqui
Para que o agronegócio chegasse ao patamar em que está hoje, foi preciso criar estímulos para os milhares de donos de propriedades que atuam no país. Para isso, o cooperativismo nos ramos agro e crédito tem trabalhado em conjunto para garantir o funcionamento de uma cadeia que resulta em alimento na mesa, e nos portos.

Luís
Henrique Veit, Superintendente de Agronegócios do Sicredi
Luís Henrique Veit, da
Superintendência de Agronegócios do Sicredi, ressalta que esse funcionamento
que vemos hoje, é resultado de uma nova percepção do próprio ramo sobre seu
papel na indústria. “O cooperativismo de crédito vem expandindo cada vez mais e
isso é reflexo de uma maior compreensão sobre seus diferenciais e benefícios. O
papel que o segmento vem exercendo, inclusive, para fomentar o agronegócio é um
exemplo concreto disso. Atualmente, sistemas cooperativos de crédito têm uma
representatividade maior no setor do que em décadas passadas”, afirma.
Cada vez mais protagonista no
cenário de crédito privado, as cooperativas hoje desempenham um papel de grande
importância no oferecimento de recursos para o produtor. Tal cenário é provado
na prática, com as mais de 220 mil operações que o Sicredi realizou no Plano
Safra 2020/21, totalizando mais de R$29,1 bilhões de crédito ofertado. Aqui, a
cooperativa – assim como outra – atua como uma intermediária do governo,
levando ao produtor crédito através de programas federais como o Pronaf e
o Pronampe.
Sendo apenas um dos agentes a
entrar no importante cenário do crédito rural, a atuação das cooperativas
representou um dos primeiros sinais de diversificação de crédito no Brasil,
algo que hoje é observado nos mais diversos frontes. Nesse cenário, um grupo
específico de produtores foram os grandes beneficiados. “O apoio a pequenos e
médios produtores rurais e à agricultura familiar é um dos nossos focos em
operações de crédito, principalmente as que envolvem o Plano Safra. Este
público representa cerca de 80% das operações que realizamos anualmente – e
essa tendência deve se manter nos próximos ciclos”, nos conta Veit.
Além da democratização do
crédito, as cooperativas ainda realizam um importante trabalho de assistência
para esses produtores. Assim, não há apenas a oferta do produto, mas também um
trabalho para que ele seja aplicado da forma correta. “Um aspecto muito
relevante da atuação das cooperativas de crédito no fomento à atividade rural é
a proximidade que temos com os associados, que permite projetar com mais
precisão as necessidades de cada região para a safra. A partir disso, buscamos
a maior diversificação possível de fontes que possibilitem conceder crédito com
boas condições”, Veit completa.
A atuação dessas cooperativas
representou um primeiro momento da diversificação de crédito no Brasil. Mas,
com uma demanda cada vez maior, a necessidade da entrada de novos players nesse
jogo tem se mostrado cada vez mais desejável. Nesse contexto, uma nova forma de
financiamento rural tem surgido. Uma forma alinhada com um modelo social que já
vivemos diariamente.
A era do compartilhamento
Vivemos a sociedade
dos coworkings (espaços de
trabalho compartilhados) e colivings (moradia
compartilhada). Cada vez mais, o mundo pede por uma economia compartilhada. No
mundo dos financiamentos, essa nova regra também se aplica, através dos chamados
“crowdfundings”, onde pessoas com um interesse comum, se unem para investir em
algo que lhes trará um retorno. Tais formas de financiamento são populares
entre artistas independentes, que buscam nessa modalidade recursos para dar
vida às suas obras.
O cooperativismo, não fica atrás quando falamos da utilização dos benefícios desse novo mundo de crédito. Criadas a partir da união de pessoas para a obtenção de um bem comum, as cooperativas possuem na sua essência os elementos que hoje podemos encontrar em plataformas de financiamento coletivo. Levando para os exemplos práticas, o último ano mostrou que o movimento está a parte do poder dessa ferramenta, com cases aparecendo nos quatro cantos do país. Com a pandemia, cooperativas buscaram no financiamento coletivo, recursos para continuarem suas atividades. Casos assim, aconteceram em Campo Limpo Paulista e Lagoa Mundaú; onde coops foram salvas por uma verdadeira intercooperação digital.

Rafael Rios, Sócio-fundador e gestor
da Bloxs
Assim, a era do compartilhamento
chegou com tudo no mundo dos financiamentos. E no financiamento rural, esse
fenômeno não é diferente, com plataformas que já aproximam investidores e
produtores. Uma dessas plataformas é a Bloxs. Lançada em 2017,
a fintech é uma plataforma onde investidores podem conhecer e apoiar
projetos de todos os tipos, incluindo alguns ligados ao meio agro. Para Rafael
Rios, sócio-fundador e gestor da Bloxs, a popularização desse
novo meio de financiamento, é resposta direto à demanda social que vivemos
hoje. “A economia compartilhada é fruto do desenvolvimento tecnológico e de uma
maior conectividade. O crowdfunding, assim como o Uber ou o Airbnb,
conecta agentes com interesses complementares. Pessoas buscando investimentos e
empresas buscando financiamento, com o apoio da conectividade para
aproximá-las”, afirma.
Com a conexão de várias pessoas,
através de um ambiente totalmente digital, os crowdfundings tem
chamado a atenção de vários setores, inclusive do agronegócio. Sendo uma forma
mais prática de buscar financiamento para projetos, essa ferramenta ainda tem
em si um dos grandes atrativos da era atual: a redução de custos. “Este modelo
reduz substancialmente o custo e a quantidade de agentes intermediários que, no
modelo convencional, de um lado encarecem o crédito para o empreendedor e do
outro drenam a rentabilidade dos investidores”, nos conta Rios.
Além da redução de custos,
os crowndfundings ainda tem atraído investidores fora dos ramos
envolvidos, além de outros benefícios. “O financiamento coletivo traz novos
agentes para o mercado. Investidores pessoa física, que em geral tem disposição
para tomar risco, desde que lhe seja apresentado um bom projeto. Permite também
que terras ociosas possam ser “operadas” por profissionais do ramo, que possuem
a técnica e complementam este conhecimento com o capital de investidores”,
completa.
O futuro do crédito
Seja através de recursos federais
ou vindos do setor privado – através de cooperativas ou plataformas de
financiamento coletivo – hoje o crédito rural vive um novo momento. Com a
produção aumentando a cada ano, novas formas de obter recursos serão
necessárias para manter a produção nacional a níveis favoráveis.
Fonte: MundoCoop - Leonardo César