Curiosidades do coop: conheça personalidades que marcaram a história do cooperativismo
Do século XIX à atualidade, diversos nomes se destacaram como defensores e entusiastas do cooperativismo, deixando um legado de avanços para o movimento
Alguns nomes ficam marcados na história por construírem trajetórias que deixam um legado duradouro para a humanidade. Essas pessoas são reconhecidas por dedicarem tempo, conhecimento e esforço ao desenvolvimento de áreas como ciência, política, filosofia e cultura. E por que não dizer: cooperativismo?
O modelo de negócio existe há quase dois séculos e, década após década, evoluiu e se consolidou como um movimento capaz de unir desenvolvimento social e econômico. Esse avanço contínuo, que transformou uma iniciativa de tecelões de Rochdale em um movimento global, só foi possível graças à atuação coletiva e à força da colaboração. Afinal, a cooperação e a união de esforços em torno de um objetivo comum são uma das principais características desse modelo societário.
Ainda assim, mesmo sendo um movimento essencialmente coletivo, sua trajetória também foi marcada por lideranças e personalidades que, com visão, coragem e compromisso, ajudaram a estruturar princípios, difundir valores e impulsionar a expansão do cooperativismo ao redor do mundo.
Por isso, no artigo de hoje, vamos honrar legados de “heróis sem capas” que contribuíram positivamente para o fortalecimento do cooperativismo e que ajudaram a alçar o modelo à posição em que ele se encontra hoje: respeitado globalmente e apontado como aliado essencial para a construção de um mundo melhor.
Alice Acland
Embora ainda pouco mencionado, entre os 28 tecelões que fundaram a Sociedade Equitativa dos Pioneiros de Rochdale estava uma mulher: Eliza Brierley. Sua participação na primeira cooperativa moderna ocorreu em um contexto social em que as mulheres, não contempladas pelo direito civil, não faziam parte da vida social e econômica.
Décadas depois, outra mulher honrou o legado de Brierley e fez história no cooperativismo ao presidir a primeira reunião feminina dedicada ao movimento cooperativista. Alice Acland transformou aquela presença pioneira em agenda organizada quando, em 1883, criou e editou a coluna “Women’s Corner” no Co-operative News. Ela convocou leitoras a irem além do ato de comprar nas lojas cooperativas e a se reunirem para ler, debater e agir, um chamado que rapidamente mobilizou mulheres de diversas localidades.
A repercussão da sua coluna levou à formação da Liga das Mulheres para a Expansão da Cooperação, logo depois renomeada Guilda Cooperativa das Mulheres. A primeira reunião, que ocorreu em 1983, em Edimburgo, contou com a participação de 50 mulheres.
Essa organização, sob o comando de Acland, foi essencial para promover a educação, a cidadania e por incluir as mulheres nos debates cooperativos, contribuindo para a construção de uma sociedade mais igualitária e equitativa com a participação feminina.
Padre Theodor Amstad
Em 2019, o cooperativismo brasileiro ganhou um patrono: o padre Theodor Amstad. Nascido no ano de 1851, na Suíça, anos depois da fundação da primeira cooperativa moderna. Aos 18 anos, o suíço entrou para a vida sacerdotal como noviciado e, 15 anos depois, após ter passado por outros países como Holanda e Inglaterra e ter recebido a ordem sacerdotal, ele iniciou seu trabalho missionário no Brasil.
Amstad chegou ao país em 1885 e se instalou no Rio Grande do Sul, onde fora designado a dar assistência eclesiástica aos imigrantes germânicos que vieram para o país a partir de 1824. Boa parte da atuação do religioso se deu no interior do estado, percorrendo pequenos povoados e compreendendo as necessidades da população local, que ultrapassavam o campo religioso.
Tendo notado que as famílias também careciam de apoio financeiro e educação, o padre apostou na ajuda mútua para solucionar esses problemas. Com essa premissa, ele ajudou a constituir, no ano de 1902, a primeira cooperativa financeira da América Latina, a Caixa de Economia e Empréstimos Amstad, em Linha Imperial, no município de Nova Petrópolis.
Durante suas atividades pastorais, o padre ainda ajudou a fundar outras 35 cooperativas no Rio Grande do Sul e uma em Santa Catarina. Com seu legado, ele deixou bases sólidas para o cooperativismo de crédito brasileiro e contribuiu diretamente com o desenvolvimento de comunidades locais, sendo um mensageiro dos princípios e da doutrina cooperativista.
Pauline Green
Somente 115 anos depois da sua constituição, a Aliança Cooperativa Internacional (ACI) elegeu uma mulher como presidente. A inglesa Pauline Green assumiu o posto após ganhar a eleição de 2009, que aconteceu durante a Assembleia Geral da organização, realizada em Genebra, na Suíça.
Mas, um longo trajeto foi percorrido antes da Green se tornar a maior liderança cooperativista global. Durante três mandatos, entre os anos de 1989 e 1999, ela foi membra do Parlamento Europeu, defendendo os partidos Trabalhista e Cooperativista, que se unem por meio de uma aliança. Durante o período em que compôs o parlamento, Pauline atuou como uma voz ativa do movimento cooperativista, defendendo políticas alinhadas aos valores do modelo.
Após deixar a política, ela assumiu a função de chefe-executiva do Co-operatives UK, no Reino Unido, entidade similar ao Sistema OCB do Brasil. Ela ocupou o cargo de 2000 a 2009 e, durante parte desse período, também se dedicou à Aliança Cooperativa Internacional da Europa (ACI Europa). A chegada da liderança na organização mundial, em 2009, foi um marco para o movimento cooperativista.
Pauline Green ficou à frente da ACI entre 2009 e 2015, impulsionando uma agenda de fortalecimento global do cooperativismo, defendendo que o movimento precisa ocupar um espaço mais ambicioso na economia mundial. Ela articulou estratégias e esteve diretamente envolvida na decisão da ONU de declarar 2012 como o Ano Internacional das Cooperativas.
Como presidente da ACI, Green também participou do lançamento global da marca “coop” em 2013, movimento que criou uma logomarca única para facilitar o reconhecimento de cooperativas por pessoas em diferentes países.
Luiz Carlos de Oliveira
Hoje, o cooperativismo é pujante e tem forte presença em todo o território do Espírito Santo. Muitos foram os motivos que levaram o capixaba a acreditar nessa forma coletiva de empreender. Uma pessoa se destacou na luta para que o cooperativismo se tornasse um movimento respeitado pela sociedade: Luiz Carlos de Oliveira.
Oliveira nasceu em 1935 na cidade de Cariacica e se formou em Ciências Contábeis pela Universidade de Vila Velha. Contador, auditor independente e especialista em sociedades cooperativas, ele iniciou suas atividades profissionais como servidor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em 1963.
À época, o órgão era responsável por fiscalizar e autorizar o funcionamento das cooperativas no Espírito Santo. Como técnico, Luiz Carlos Oliveira executou diversas atividades que propiciaram o crescimento do cooperativismo no estado e que culminaram, em 1972, na criação da Organização das Cooperativas do Estado do Espírito Santo (Ocees), hoje OCB/ES. Ele acompanhou de perto o crescimento das cooperativas capixabas e atuou como assessor no mandato de diversos presidentes da organização.
Em 1992, o contador assumiu a superintendência da OCB/ES, ocupando o espaço até 2004. Durante os anos à frente da entidade, presenciou e comandou avanços importantes para o cooperativismo capixaba. Oliveira, que faleceu em outubro de 2022, tem seu legado reconhecido em uma comenda da Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo (Ales). Seu rosto estampa a medalha Luiz Carlos Oliveira, que agracia personalidades nos âmbitos estadual, nacional e internacional com atuação de destaque no cooperativismo.
Roberto Rodrigues
A história do cooperativismo brasileiro, nos últimos 50 anos, se confunde com a tarjetória de vida de Roberto Rodrigues. Nascido em São Paulo no ano de 1942, Rodrigues ingressou no curso de Engenharia Agrônoma em 1965 e, ao longo de sua carreira, se dedicou à vida acadêmica, ao fortalecimento do agronegócio e à defesa do movimento cooperativista.
A projeção nacional veio quando presidiu o Sistema OCB por dois mandatos (1985-1991), período em que ajudou a articular o fortalecimento institucional do cooperativismo no país e ampliar a sua presença na formulação de políticas públicas – uma base que ele levaria, depois, para a arena internacional.
Em seguida, Rodrigues consolidou sua liderança global ao presidir a Aliança Cooperativa Internacional (ACI) a partir de 1997, quando foi eleito. Ele foi o primeiro presidente não europeu da entidade em 102 anos. Sua gestão ajudou a reposicionar o cooperativismo brasileiro no cenário global, ampliando a interlocução do movimento das Américas dentro da ACI.
Anos depois, esse protagonismo seria reconhecido com o Rochdale Pioneers Award, honraria máxima da ACI que destacou sua contribuição de décadas para dar visibilidade e perfil ao modelo cooperativo no mundo. Dois anos depois de encerrar seu mandato na ACI em 2001, ele se tornou ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, tendo uma atuação que promoveu a completa reestruturação da instituição e a promoção de políticas públicas para fortalecimento do cooperativismo agropecuário brasileiro.
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