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Espírito Santo

ES Coop para o Futuro: fundador da Quaest analisa cenário eleitoral e prevê surpresas

Felipe Nunes aponta descompasso entre indicadores econômicos e percepção da população e avalia disputa eleitoral aberta, com cenário indefinido no Brasil e no Espírito Santo


08/05/2026 09:17 - Por Síntia Ott
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O cientista político Felipe Nunes compartilhou pesquisas que ajudam a entender o eleitorado atual. Foto: Sistema OCB/ES

A desconexão entre indicadores econômicos e a percepção da população sobre sua própria situação financeira, o peso crescente do endividamento e o papel decisivo dos eleitores independentes marcaram a palestra do cientista político Felipe Nunes durante o ES Coop para o Futuro. O evento foi realizado pelo Sistema OCB/ES com o apoio do Sebrae/ES. A apresentação ocorreu no dia 7 de maio e reuniu análises baseadas em pesquisas da Quaest sobre o cenário econômico, social e eleitoral do país. 

PhD em Ciência Política, mestre em Estatística, professor da FGV-SP e fundador da Quaest, Nunes destacou que o Brasil vive um momento de aparente contradição: indicadores positivos convivem com uma percepção negativa generalizada. A seguir, confira trechos da palestra que aprofundam essa análise. 

Economia melhora, mas percepção piora 

Dados do Banco Central apresentados por Nunes mostram que o país tem registrado crescimento do PIB nos últimos anos, com taxas superiores a 3% após a pandemia, inflação dentro da meta e queda no desemprego para os menores níveis em quase uma década. Ainda assim, ele considera que a maioria dos brasileiros percebe que a economia piorou. 

Uma pesquisa da Quaest indica que, em abril de 2026, 50% dos brasileiros afirmavam que a economia havia piorado nos últimos 12 meses, 27% não perceberam mudanças, 21% disseram que houve melhora e 2% não responderam ou não souberam responder. 

“Vocês entenderam o que está acontecendo no Brasil? O macro resultado não está sendo transferido para as pessoas perceberem melhora no padrão de vida”, interpretou o palestrante. 

Segundo Nunes, essa distorção se explica pelo conceito de affordability (acessibilidade, em português), ou seja, a capacidade real de acesso a bens e serviços que simbolizam qualidade de vida. 

Apesar do aumento de renda, a maior parte da população afirma que esse ganho não acompanha o custo de vida: 55% dizem que a renda cresceu menos que as despesas, enquanto apenas 12% afirmam que cresceu acima dos custos. 

“O que importa não é só a renda aumentar, mas o padrão de vida melhorar, e isso não está acontecendo para a maioria dos brasileiros”, disse o palestrante. 

Endividamento e preços pressionam famílias 

Felipe Nunes destacou três fatores principais que ajudam a explicar o cenário eleitoral incerto: o endividamento da população, preços elevados e novos padrões de consumo. 

Um levantamento da Quaest mostra que uma parcela significativa da população possui dívidas, com predominância de brasileiros declarando ter algumas ou muitas obrigações financeiras. Ao mesmo tempo, a percepção sobre preços segue negativa: 72% afirmam que os alimentos continuaram subindo recentemente. 

“O aumento da renda não resolve quando o custo de vida cresce junto. As pessoas estão pressionadas por dívida e preço”, explicou o cientista político. 

Programas aprovados, mas sem impacto político 

Outro ponto central foi o desempenho das políticas públicas. Programas como Minha Casa Minha Vida, Farmácia Popular e Bolsa Família apresentam altos índices de aprovação, acima de 80% em alguns casos. Apesar disso, a avaliação do atual governo não acompanha o desempenho dessas iniciativas, mantendo-se instável ao longo de 2025 e 2026. 

Para Nunes, isso se deve a uma mudança estrutural no comportamento do eleitor: a chamada “fim da gratidão automática”. “A população passou a enxergar políticas públicas como direito, não como favor. Quando o governo entrega, a reação é: fez mais que obrigação”, afirmou. 

Essa mudança explica, por exemplo, o fato de que medidas como a isenção do imposto de renda, que beneficiou cerca de 30% da população, não geraram impacto significativo na aprovação do governo. 

Eleitor mais definido e polarizado 

A análise também mostrou uma transformação no perfil do eleitorado. Hoje, o Brasil tem maior identificação ideológica: cerca de 35% se posicionam à esquerda e 35% à direita, reduzindo significativamente o grupo sem identidade política. 

Além disso, o eleitor está mais consolidado em suas posições. Entre eleitores lulistas e bolsonaristas, mais de dois terços afirmam que seu voto é definitivo. “O eleitor brasileiro está calcificado, difícil de convencer, de mudar de opinião e de visão de mundo”, destacou Nunes. 

Mesmo com essa polarização, o resultado eleitoral dependerá de um grupo específico: os eleitores independentes. Eles representam cerca de um quinto do eleitorado e são os mais propensos a mudar de voto ao longo da campanha. Nessas camadas, a disputa é mais aberta e sensível a fatores como percepção econômica e imagem dos candidatos. 

“A eleição é definida na margem. Quem decide não são os já convencidos, mas quem ainda pode mudar de lado”, afirmou o palestrante. 

Considerando esse cenário, o especialista ressaltou que as probabilidades eleitorais ainda estão em aberto e podem sofrer mudanças significativas até o pleito. “Preparem-se para grandes mudanças. Essa é uma eleição que pode ser decidida por poucos pontos e por eventos que ainda vão acontecer”, concluiu. 

Disputa apertada e cenário aberto 

Os dados apresentados mostram um cenário competitivo. Em simulação de primeiro turno, Lula aparece com cerca de 37% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro, com 32%. No segundo turno, a disputa se mantém equilibrada, com variações dentro da margem de erro. 

Além disso, fatores externos podem influenciar o resultado, como o papel do Supremo Tribunal Federal (STF), instituição sobre a qual predomina a percepção de desconfiança e temas como corrupção e violência, apontados entre as principais preocupações da população. 

No Espírito Santo, o quadro também é fragmentado e sensível à definição dos candidatos. Levantamentos indicam que, em cenários de primeiro turno para o governo estadual, nomes como Ricardo Ferraço, Lorenzo Pazolini e Magno Malta aparecem tecnicamente próximos, com índices que variam entre cerca de 15% e 32%, a depender da composição do cenário. 

Nas simulações de segundo turno, não há ampla vantagem consolidada: Ferraço e Pazolini aparecem em empate técnico em alguns cenários, enquanto Paulo Hartung também surge competitivo dependendo da configuração. Para o Senado, a disputa tende a ser ainda mais pulverizada, com vários nomes concentrados em faixas próximas de intenção de voto e alto percentual de indecisos, o que aumenta a imprevisibilidade. 

Esse cenário reforça a avaliação de Nunes de que tanto no plano nacional quanto estadual a eleição permanece aberta, fortemente dependente da definição de candidaturas e da mobilização de eleitores ainda indecisos. 


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Fonte: Sistema OCB/ES

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