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Espírito Santo

Por que as cooperativas são mais longevas que outros tipos de empresas?

Estudos mostram que o modelo cooperativista favorece a sustentabilidade dos negócios, a resiliência econômica e a atuação a longo prazo


06/05/2026 09:51 - Por Síntia Ott
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Foto: Adobe Stock

Diversos estudos apontam que as cooperativas duram mais que empresas que seguem outros modelos de negócio. O Anuário do Cooperativismo Brasileiro de 2024 apontou que mais da metade (53,3%) das então 4.509 cooperativas do país estavam no mercado há mais de 20 anos. Enquanto isso, uma pesquisa do IBGE revelou que seis em cada dez empresas que nascem no Brasil não sobrevivem após completar cinco anos.

O padrão se repete no cenário internacional. O estudo A Economia Cooperativa 2018, elaborado pela Co-operatives UK, concluiu que 80% das cooperativas do Reino Unido sobrevivem aos primeiros cinco anos em comparação com 44% das demais empresas. A pesquisa ainda traz dados de Portugal, onde a proporção é de 75% para 40%; Bélgica (80% | 68%); Canadá (84,6% | 45%); e França (81% a 89% em cooperativas de trabalhadores | 40% a 50% em empresas convencionais).

Mas por que isso acontece? O que diferencia as cooperativas de outros tipos de negócio e permite que elas sejam mais longevas? Com base em diversos estudos sobre o cooperativismo, mapeamos cinco aspectos que influenciam e prologam a vida útil das cooperativas. Conheça a seguir!

1. Governança democrática e engajamento dos membros

Nas cooperativas, as decisões são tomadas em conjunto. Os cooperados, que são os membros, elegem seus representantes, aprovam a prestação de contas, definem a destinação das sobras (o equivalente ao lucro nas demais empresas) e decidem coletivamente sobre planos e ações de interesse mútuo.

Isso é possível devido ao segundo princípio do cooperativismo, a gestão democrática, que encontra eco em leis que definem o funcionamento das cooperativas, a exemplo da Lei 5.764 no Brasil.

Esse tipo de governança favorece decisões mais prudentes e que focam no longo prazo. A gestão descentralizada tende a estimular escolhas mais assertivas e evita exposição a riscos, fatores que influenciam a durabilidade de uma cooperativa.  Outro benefício é o aumento do compromisso dos cooperados com o negócio, despertado pelo senso de pertencimento.

2. Arquitetura financeira compartilhada

O lucro não é a finalidade principal de uma cooperativa. Seu objetivo maior é atender às necessidades dos seus cooperados, ofertando serviços e soluções que supram demandas compartilhadas. Investir na competitividade é, sim, importante, mas com o propósito de gerar benefícios a todos os cooperados.

Para sustentar essa lógica, as cooperativas possuem uma arquitetura financeira própria, amparada no segundo princípio do coop. Os cooperados participam dos resultados econômicos e contribuem com a formação do capital social e dos fundos de reserva. Se houver sobras (lucro), elas são reinvestidas na cooperativa ou divididas de forma proporcional à participação econômica de cada cooperado. Se houver perdas, o prejuízo é rateado.

A política de retenção de resultados e formação de reservas reduz o risco de insolvência e aumenta a sobrevivência em ciclos econômicos adversos. Nas cooperativas, o foco é capitalizar a longo prazo, visando construir uma estrutura financeira robusta e menos volátil. Esse tipo de gestão beneficia a longevidade do negócio.

3. Intercooperação e redes de apoio

No cooperativismo, as relações de cooperação extrapolam o ambiente interno. Além de unir cooperados em torno de um propósito compartilhado, as cooperativas são incentivadas a colaborar umas com as outras. Esse fenômeno é chamado de intercooperação, também conhecido como o sexto princípio do cooperativismo.

Como isso ocorre na prática? Vejamos alguns exemplos. Uma cooperativa agropecuária pode fechar uma parceria com uma cooperativa de transporte para escoar sua produção. Uma cooperativa de crédito pode prestar serviços financeiros para os profissionais de uma cooperativa de saúde. Uma cooperativa de infraestrutura pode fornecer energia renovável para cooperativas de outros segmentos.

As possibilidades de intercooperar são múltiplas, e as vantagens também. Quando as cooperativas cooperam entre si, é mais fácil reduzir custos, escalar a produção, compartilhar estruturas e conhecimentos e superar dificuldades. Todas essas condições influenciam o tempo de atuação e a resiliência de uma cooperativa.

4. Economia de escala e competividade

Você já deve ter ouvido o ditado “Sozinhos vamos mais rápido. Juntos vamos mais longe”. Essa é a lógica que orienta os negócios de uma cooperativa. Quando um grupo de cooperados se reúne para trabalhar em conjunto, eles aumentam seu poder de negociação e competividade.

Imagine um produtor rural que atua de forma totalmente autônoma. Ele precisará investir atenção e recursos do cultivo à venda do seu produto. Com a ajuda de uma cooperativa, ele poderá comprar insumos com condições especiais, receber assistência técnica, participar de capacitações e vender, armazenar e beneficiar sua mercadoria a preços mais vantajosos.

Toda essa gama de serviços é viabilizada pela estratégica do compartilhamento, que permite reduzir o custo médio de produtos e serviços destinados aos cooperados, profissionalizar e ampliar o negócio e reduzir a dependência de intermediários. Dessa forma, a margem de resultados aumenta, favorecendo o cooperado e a sustentabilidade econômica da cooperativa a longo prazo.

5. Envolvimento com a comunidade

Nem só de resultados financeiros é feito o cooperativismo. O modelo de negócio se destaca por investir em projetos sociais, prática estimulada pelo princípio do interesse pela comunidade. Isso significa que as cooperativas promovem o desenvolvimento sustentável das comunidades onde estão inseridas, seja por meio de ações pontuais ou contínuas.

Um caso concreto são as ações do Dia de Cooperar desenvolvidas pelas cooperativas brasileiras. São iniciativas voluntárias que atendem necessidades das localidades onde estão instaladas e que estão conectadas aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

O envolvimento ativo com as comunidades prolonga a vida útil de uma cooperativa porque traz propósito e relevância para a identidade da organização. É um ativo que gera empatia e conexão com pessoas fora do círculo cooperativista e ajuda a construir capital simbólico e legitimidade social. Quando a cooperativa se torna parte da vida social, sua continuidade deixa de ser apenas uma escolha econômica e passa a ser uma responsabilidade compartilhada.

Conclusão

A longevidade das cooperativas não é fruto do acaso, mas resultado direto de um modelo de negócio baseado na cooperação e na visão de longo prazo. A governança democrática, a arquitetura financeira compartilhada, a intercooperação, os ganhos de escala e o compromisso com as comunidades criam organizações mais resilientes, capazes de enfrentar ciclos econômicos adversos e de se adaptar às mudanças do mercado.

Ao priorizar pessoas e necessidades comuns, e não apenas o lucro imediato, as cooperativas constroem relações de confiança, fortalecem sua base social e ampliam sua relevância.

Pesquisas publicadas no mundo todo confirmam que esse conjunto de fatores faz do cooperativismo um modelo sustentável, competitivo e preparado para durar. Mais do que sobreviver, as cooperativas mostram que é possível crescer com equilíbrio, propósito e responsabilidade coletiva.

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Fonte: Sistema OCB/ES

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